quinta-feira, 1 de junho de 2017

Quinta-feira


Última que poderei largar a louça suja e pia sem você reclamar.
A última para eu me enganar e comer doces do armário sem você saber
Depois de tantas noites vivendo bem com sua voz, sua escrita, sua imagem na tela
Me deparo com tamanho estranhamento que é pensar em ter aqui pele pêlo e respiro.
O guarda-roupa nem tem tamanho para a roupa tua.
Estou aqui pensando que meus papeis espalhados pela mesa vão te reclamar.
Descobrirá de vez que ouço música pop
A cama estará sempre feita daqui pra frente. E de ombros ajeitados, coluna ereta sempre andarei.
Será a última vez que poderei esquecer de regar a pimenteira e a espada de São Jorge.
As tomadas não serão mais só minhas.
O café será feito com água à circular, no ponto de fervura.
Última poesia. Até agora.

domingo, 19 de março de 2017

Coisa boa

Sou eu que sinto as horas que não passam.
O nó na garganta da cidade que te mata, só de pensar.
O relógio marca paciência,
A caneta desabafa o turbilhão contraditório dessa linha torta e bamba entre confiar e amar.
Se o amor é uma coisa boa, por que com ele tudo fica mais difícil?
Não, eu não quero tolher seus caminhos,
Quero mirar o que a tua vista alcança,
Nadar em maré baixa, ouvir o silêncio dos pássaros e brisa leve,
Vestido e tênis na areia,
Dedos apertados pelas suas mãos.

domingo, 20 de novembro de 2016

Tic-Tac

É desgastante à distância.
Eu tenho vivido a minha vida numa involuntária contagem regressiva,
Quero que o presente seja o futuro
E gosto também de sair para dançar.
Mas pouco saio e tão pouco danço.
Difícil é terminar uma conversa sem um fim,
É arriscado magoar,
Pedir desculpas sem um beijo no rosto,
Um aperto na mão que desate o nó.
O tempo passa, mas ainda assim, há muito tempo.
As lágrimas caem no silêncio, no meio das léguas
E não chegam a lugar nenhum.
Tanto mar. 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

DeCaThlon


Tão fresco quanto o sol do inverno que brinca pela manhã,
Tua necessidade de estar em todos os lugares estimula os sentidos
E questiona a razão da província.
Tua figura me escapa dos dedos e,
Trêmula, como as páginas do livro que lê, com o vento, ainda sinto o calor de tuas mãos.
Enxergar o mundo com tuas lentes não é mais que ter vestido e buquê
À beira de uma queda d’água
Donde vive

Um penhasco. 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Dos lugares que irei


Certa vez pensei em ficar, ficar meus pés no chão.
Fazer repousar ânimo, coragem, vida.
Mas era da juventude o princípio e não deu para viver em tom pastel.
Sentia que precisava de um punhado de mar em minhas mãos, para me levar à imensidão.
Passado o que se foi. Aprendi a me guiar pela incerteza da vontade,
Agora tenho a cidade sob meus pés, vez, voz e vão (um desses vários dos sertões),
Meus argumentos estão concentrados em voar.
E que céus há para se descobrir (!) há um par de luas, fogueiras, areias, flores do mato num buquê de memórias,

De futuras histórias que hão de vir. 


sexta-feira, 25 de março de 2016

Das chaves


Na dúvida, ele fecha a casa com chave tetra para que a colega não interrompa
O gole nas taças,
A disposição das cadeiras,
E a música ao fundo
Com sua (in)evitável presença.
No fundo, ele sabe que vai resistir. Mas
Acaba desistindo diante da noite de chuva e fazendo sentir sua existência.
Mais uma vez.
Ele quer um poema mais profundo, que o descreva melhor. Mas a resoluta companheira
Só o faz provar o sabor amargo dos vislumbres das brechas. Fruto de sua alma,
Que se torna enigmática na medida em que é conhecida profunda e profundamente.
O que será o seu amor?
Um boleante sentimento, como o vinho que rega a noite?
Ou como um cacho do cabelo dela, que se desenha lentamente, na medida em que se vê livre dos traços de um pente?
Tal qual o som da mata, que aos nos silenciarmos toma forma, é assim que tudo

(ou quase tudo) deve ser.