quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Arte
Vontade que dá é sair correndo. Sua amiga chata é realmente chata. E implica com as palavras em voz alta, indelicadamente. E eu inconvenientemente passo a conversar, quem quer me ouvir?! Luzes e rabiscos na tela sugerem o que é arte. Indecretada. Moderna ou pós, não entendo esses nomes. Todos ao meu redor falam isso soletrando o mundo, codificando-o através da existência ou ausência do prefixo pós. Entediante. Tantos nomes falados de autores renomados me cerceiam. Não sei quem fez o filme, não sei da biografia, do livro no início da carreira. A citação é da academia, que não sai de nós. Eu bem sei que sou assim. Estou farta. Mas seguirei assim, caminhando por estes meios e distribuindo farpas aqui e ali, escrevendo poemas curtos ou longos, pretendendo-me bela por minhas críticas. E seguirei sendo chata como todos os outros tão clichês em busca do não clichê.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016
Seu Zé
Um ônibus desvia sua rota e sua pele negra nem se preocupa com o perigo de atropelamento. Seu andar esforçoso, porém fatigado ao subir a Rua Teodoro Sampaio, conduz uma carroceria que remete há uma centena de anos e que até hoje não parece ter saído do cenário. Não destoa do habitual. Olhos baixos, conformados, reafirmam sua posição histórica. Apenas mais um catador de objetos rejeitados pela sociedade. Apenas mais um objeto rejeitado pela sociedade.
Não se sabe seu nome e afinal, por que se saberá?
Não se sabe seu nome e afinal, por que se saberá?
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
Dona Neide
No bar do Seu Zé, Dona Neide nem descansa. Ela bota as empanadas de shimeji para assar, tira as tradicionais de frango com passas do forno, serve o delivery com porções congeladas e cede sua janta, uma salada em prato branco e raso, às moscas. Ela justifica: tem mais tempo de casa e por isso, mais trabalho. Serve de gelo um copo, suspira, enquanto os garçons brincam com as meninas das mesas. Ela coordena o balcão, troca a caipirinha de limão por uma de maracujá e volta a dar algumas garfadas em sua salada, de pé. Sai à 1h30 da manhã, mas justifica: mora aqui do lado. Interrompe sua janta mais uma vez para servir um refrigerante, mais uma original na mesa 4. Mas hoje tá tranquilo, justifica.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Essas meninas
Tudo o que nós queremos é que seja leve
Como a garoa que cai mansinha,
Que dispensa o guarda-chuva e, de repente
Nos molha por completo.
Não queremos um foagrá,
Apenas um ovo frito, alface, tomate, cebola,
Arroz com feijão diariamente.
Queremos que um vento de súbito nos envergonhe,
Os vestidos dancem, as mãos se entrelacem,
O riso nunca se perca e saia a caminhar no parque
Que o domingo não nos mate.
Queremos é esquecer a maquiagem e andar nuas,
Despidas de medo ou pudor.
Providas de voz e vontade.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
Das culpas
Se aproximou sem pedir licença,
Roubou um caminho, um beijo, uma conversa desimpedida.
Encenou, falhou, reconheceu, voltou atrás
E pôs na mesa a melhor vestimenta,
O texto decorado, as palavras meticulosamente armadas,
As expressões, os próprios passos.
Depois disso amou. Todo o seu ser, como só poderia.
Contemplou o vasto vocabulário e as inúmeras formas de ser o que não se é.
Riu baixo, esperou e resolveu dançar, esporadicamente.
Retomou a face mansa, mas já não doce
E foi se juntar à sinceridade comedida.
Calculou palavras, comeu, chorou, dançou, riu e foi se embora num bater de portas.
24/11/15
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
tímida
09.11.15
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
Decoupage
_Professora, não estou colando dele. Estamos em partes diferentes da prova.
***
_Professora,
tenho uma dúvida. - A aluna ao lado da minha mesa.
_Diga. - Eu
respondo.
_ Ah, não sei explicar. Não sei qual minha dúvida direito. Já
volto!
Momentos depois eu pergunto:
_ Já sabe qual sua dúvida?
Da sua carteira, a aluna responde:
_ Ah, professora! Já tirei,
obrigada!
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